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Artigos / Ciro Antônio Rosolem

Percepção, verdade e interesses

01 Out 2020 - 11:07

Já recebi piadas pelo WhatsApp eliminando o ano de 2020, dizendo que não teria servido para nada! Não concordo. O ano começou com esperança e alta expectativa, mas...
 
Apesar do desempenho maravilhoso do setor agrícola, o ano tem sido emocionante, para o bem e para o mal. Começou lá atrás, com a aprovação do Acordo de Comércio Europa-Mercosul.
 
Sabíamos que não seria fácil. Bom, e o que tem a ver? Tem a ver que todo barulho que os europeus vêm fazendo, liderados por França e Alemanha, que culminou com carta ao nosso Vice-Presidente cobrando "ações reais imediatas" contra o desmatamento, com ameaça de pararem com investimentos no Brasil e compras de nossos produtos, no fundo no fundo, não se refere a ambiente. Refere-se à proteção dos produtores rurais deles, altamente subsidiados, e fortes lobistas. Essa é a verdade, ou pelo menos, boa parte dela. Mas, quem liga para verdade?
 
Numa perspectiva histórica, considerando-se o clima e onde o desmatamento e o fogo na Amazônia estão ocorrendo, o panorama não é tão grave quanto aparece nas fotos de jornais. Tivemos então o azar de um ano extremamente seco, com temperaturas acima do normal. E então o fogo. Inclusive no Pantanal.

Por incrível que pareça, em alguns locais a preservação ambiental vem alimentando os incêndios. Sim, a preservação resulta em maior massa vegetal que, seca, é excelente combustível. Morrem animais silvestres, e morre o gado, isso sim uma tragédia. Então o atual governo diz que o "desmonte" da fiscalização vem do desgoverno anterior, e os adeptos do governo anterior inundam as mídias denunciando o desgoverno atual. Na verdade, nem tanto cá, nem tanto lá.
 
Talvez tudo isso nos sirva de lição, aprendizado para o futuro. O jogo econômico é pesado, mas não é prático só se lamentar e dizer que fizemos quase tudo direito, que temos a legislação ambiental mais restritiva do mundo, que preservamos mais florestas que todos. De novo, verdade. Mas, quem se preocupa com a verdade?
 
Como se trata de percepções, política e uso sem critério de informações parciais, o jogo é muito complexo. Precisamos de um time que, primeiro estabeleça uma defesa forte, e depois estruture um ataque eficaz. Me parece um bom começo a união de organizações ambientalistas e representantes do agronegócio na Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que acaba de fazer recomendações consensuais ao governo. Trata-se agora de seguir suas recomendações, e alardear pelo mundo sua existência e atitudes.
 
O setor produtivo está ciente e atento. Mas as forças opostas são poderosas, e "pega bem pôr a culpa nos outros". Vai ser muito difícil, mas é um começo. Então, há um jogo da verdade, mas há um jogo político e econômico. Ambos precisam ser bem jogados. Precisamos agora que nossos ministérios falem a mesma língua, ao contrário do que ocorreu recentemente quando a área diplomática defendeu a extensão da importação de etanol dos Estados Unidos contra a posição da Agricultura, enquanto nossos estoques estão muito altos. Mas, isso é assunto para outra hora.
 
Ciro Antônio Rosolem

Ciro Antônio Rosolem

Graduado em Agronomia em 1973, mestre em Agronomia (Solos e Nutrição de Plantas) em 1978 e doutor em Agronomia (Solos e Nutrição de Plantas) em 1979, sempre pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo. Cientista Visitante da Universidade da California, Davis, em 1984/85. Foi fundador, Diretor e Diretor-Presidente da Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais.

Foi Diretor do Instituto de Pesquisas Meteorológicas da UNESP. Foi coordenador da área de agrárias da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo de 1995 a 2007. É professor titular da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.

É vice-presidente da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo e é membro do International Plant Nutrition Council. Vice-Presidente de Comunicações do Conselho Científico do Agro Sustentável.

Tem experiência na área de Agricultura, com ênfase em fertilidade do solo, adubação, fisiologia aplicada, crescimento radicular, sistemas de produção agrícola, rotação de culturas e ciclagem de nutrientes, atuando principalmente nas culturas do algodão, soja, plantas de cobertura e integração lavoura-pecuária.
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