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Artigos / Luís Henrique Bassoi

Irrigação no Brasil: necessidade e opção estratégica

06 Jun 2021 - 08:15

A irrigação foi a causa da crise hídrica que ocorreu no Brasil em 2014-2015?  Ela pode ser a causa de uma nova crise em 2021? A ciência pode ajudar a compreender a situação, motivo de debates e controvérsias.

No Brasil, 49,8% da água captada de fontes hídricas é utilizada para a irrigação, segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Entretanto, a frase “a irrigação consome 70% da água” foi amplamente divulgada há alguns anos e poderá voltar às manchetes. Mas esse número se refere a uma estimativa sobre o uso de água pela agricultura em escala mundial e, de forma equivocada, tem sido lembrado e utilizado.

 A analogia com o olhar sobre o copo d’água “meio cheio” ou “meio vazio” pode ajudar a compreender o que representa a agricultura irrigada ou, simplesmente, a irrigação, num País onde o campo é fundamental para a atividade econômica, social e ambiental.

 A agricultura é uma atividade de risco e a irrigação implica em maior custo de produção, mas ao mesmo tempo pode diminuir o risco e aumentar o lucro, uma vez que sua prática é necessária em regiões onde a demanda de água pelas plantas supera o regime de chuvas. A irrigação pode ser também uma opção estratégica em outras regiões, para garantir a produção em caso de veranicos, ou mesmo para aumentar a produtividade.

É fato que a agricultura é a maior usuária de água no mundo. Segundo as Contas Econômicas Ambientais da Água do Brasil (IBGE e ANA), em 2017, para cada R$ 1,00 de valor adicionado bruto gerado pelas atividades econômicas no Brasil foram utilizados 6,3 litros de água. Se somarmos agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura, a relação atinge 96 litros para cada R$ 1,00.

 O Atlas da Irrigação (ANA) mostra que temos 8,2 milhões de hectares irrigados; a participação da irrigação no valor da produção agrícola pode chegar a 100% em muitos municípios brasileiros e, em alguns deles, o valor total da produção agrícola é de centenas de milhões de reais. A produtividade de um cultivo irrigado supera em 2 a 3 vezes o cultivo sem irrigação. Há a possibilidade de aumento da área irrigada brasileira em 55,9 milhões de hectares e aí surge a questão, quanto deixaríamos de produzir sem irrigação, ou ainda, quanto deixaremos de produzir se não aumentarmos a área irrigada?

 A maior parte da água utilizada (e não consumida) na agricultura volta para a atmosfera pela evaporação e pela transpiração que ocorre nas plantas. Outra parte dela fica armazenada no solo e nas fontes hídricas. É o ciclo hidrológico. Mas uma “terceira parte” da água está presente na matéria-prima vegetal que processamos ou transformamos e nos alimentos que consumimos. Portanto, ao desperdiçarmos alimentos, também desperdiçamos água.

 A disponibilidade de água em uma região pode variar ao longo dos anos, podendo atingir a escassez, a qual pode ser física (não há água disponível), econômica (há água disponível, mas não há infraestrutura para o seu uso) e institucional (existem água e infraestrutura, mas a água não pode ser utilizada). No entanto, a reservação de água feita com critérios pode minimizar a possibilidade de ocorrer a escassez física.

A FAO prevê um aumento de 47% na demanda mundial por alimentos até 2050. Assim, a irrigação no Brasil deve contribuir para aumentar a produção de alimentos, mas deve melhorar a sua eficácia (o que fazer) e sua eficiência (como fazer). E temos tecnologia para isso.

Em determinadas situações, pode-se aplicar água em quantidade menor que uma cultura agrícola necessita. É a irrigação com deficit, que ao ser utilizada com critérios técnicos pode ser uma estratégia interessante, em condições de restrição ou escassez de água.

 A automação pode ajudar no manejo da irrigação (quando e quanto irrigar) e a ligar e desligar um sistema de irrigação (como irrigar). O sistema de informação geográfica, a agricultura de precisão, a agricultura digital, a tecnologia da informação e a conectividade também podem auxiliar a melhorar a gestão da irrigação em áreas agrícolas de diversos tamanhos. Mas devemos aumentar e melhorar a capacitação do setor agrícola, para que isso ocorra de forma mais intensa.

Devem ser incentivados e aprimorados ainda o uso de águas residuárias e efluentes para suprir em algumas situações as necessidades hídricas das plantas, diminuindo a retirada de água de suas fontes, além da substituição da energia empregada na irrigação e proveniente de usinas hidroelétricas pela energia solar e energia eólica.

Porém, qualquer solução e tecnologia devem complementar o conhecimento agronômico, que é a base para o uso eficaz e eficiente da irrigação. Até o plantio de cultivares mais tolerantes à seca pode contribuir para reduzir o volume de água utilizado na produção agrícola.

 A crise hídrica pode levar os agricultores a mudanças nas práticas de irrigação e, quando isso ocorrer, a sociedade precisa ser informada sobre tais atitudes. Dessa forma, a divulgação de informações em relação à agricultura irrigada poderá ser pautada a partir de dados e fatos e a percepção do copo d’água ocorrerá a partir de um olhar científico. Temos tecnologia e conhecimento para isso!
Luís Henrique Bassoi

Luís Henrique Bassoi

Engenheiro agrônomo (ESALQ / USP). Mestre em Agronomia / Irrigação e Drenagem (FCA / UNESP). Doutor em Ciências / Energia Nuclear na Agricultura (CENA / USP). Pós-Doutorado no Hydrology Program (University of California, Davis, USA).

Entre dezembro de 1994 e abril de 2015, foi pesquisador da Embrapa Semiárido em Petrolina, PE. A partir de maio de 2015, é pesquisador na Embrapa Instrumentação, em São Carlos, SP. Membro do corpo docente e orientador do Programa de Pós-Graduação em Agronomia (Irrigação e Drenagem) da FCA/ UNESP. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq.

Desenvolve trabalhos de pesquisa e desenvolvimento em física do solo, manejo de irrigação, fertirrigação, uso da água na agricultura e agricultura de precisão, inclusive em parceria com produtores agrícolas. Na Embrapa, participa do Grupo Gestor do Portfólio Agricultura Irrigada e das redes de pesquisa Agricultura de Precisão e AgroHidro. Entre 2005 e 2008, foi o coordenador da Bacia do São Francisco junto ao Challenge Program Water and Food, do CGIAR.

Em parceria com unidades da Embrapa e outras instituições, participa dos Grupos de Pesquisa Vitivinicultura de Precisão, Agricultura de Precisão no Semiárido Brasileiro, Engenharia da Irrigação do Vale do São Francisco, Núcleos de Estudos em Engenharia de Biossistemas na Produção Agrícola, e Grupo de Estudos e Pesquisas Agrárias Georreferenciadas.
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